Mostrar mensagens com a etiqueta história. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta história. Mostrar todas as mensagens

   Por esta altura, já não deve ser novidade para ninguém o facto da Catedral Notre-Dame, em Paris, ter sido parcialmente consumida pelas chamas durante a tarde e noite de ontem. 
   O que nenhum de vocês sabe é que no ano 2000, fazem precisamente 19 anos em Agosto, estava eu a cumprir um sonho de infância e viajava por Paris. Em primeiro lugar visitei a Disney e posteriormente visitei a cidade. Claro que, ao visitar a cidade, a Notre-Dame foi um ponto de paragem obrigatório. 
   Apesar de ter apenas 12 anos, quando realizei esta viagem, já existia dentro de mim um tremendo amor pela arte e arquitectura. Foi uma sensação indescritível estar dentro de uma das catedrais góticas mais antigas do mundo, que sempre inspirou o imaginário de muitos.  Uma vez que estava lá, e não sabia quando voltaria ou se voltaria de todo, não perdi a oportunidade de subir às suas torres e essa é mais uma memória que vou ter presente até ao fim dos meus dias. 
   Não é possível explicar-vos a dor que senti quando vi aquele pedaço de história a arder, uma catedral que sobreviveu a guerras e atentados, que tem mais de 800 anos de história, ser consumida por um incêndio... doeu, doeu como nunca antes me tinha doído o coração e a alma por causa de um edifício... mas para mim é muito mais do que um edifício, não é apenas parte da história mundial que vi a arder, é também uma parte da minha própria história! 
   Já há algum tempo que tenho a teoria que viajar é criar memórias... quando fazemos uma viagem acabamos, inevitavelmente, por ficar com memórias preciosas relacionadas com cada local que visitamos, memórias que podemos revisitar conforme os anos vão passando. Ontem, vi parte das minhas memórias a serem reduzidas a cinzas e isso custou-me horrores. 
   Sei que vão fazer de tudo para a reerguer, sei que vão ser encontrados os meios, os profissionais e a vontade inabalável... mas sei que nunca será a mesma Notre-Dame que pisei em Agosto do ano 2000. 
   Deixo-vos algumas fotos que tirei na época. A paixão pela fotografia já era imensa mas a técnica ainda era muito pouca. Vale também relembrar que nessa época ainda se usavam as velhinhas máquinas de rolo e não era possível ver de forma prévia se as fotografias estavam boas ou não. Além disso, não se podiam tirar muitas fotos porque os rolos eram preciosos e as revelações eram caras... outros tempos, dos quais, em termos fotográficos, não tenho grandes saudades. Mas, ainda assim, todas estas fotos fazem também parte das minhas memórias e nesse ponto de vista são também elas preciosas.



   Foi pela pressão das comunidades israelitas, em Portugal e nos EUA, junto das altas instâncias judaicas, americanas e portuguesas, que se recuperou a memória de um cônsul remetido ao esquecimento. Um homem que deliberadamente colocou em risco a sua carreira e a sua vida ao desobedecer a ordens directas do Governo salazarista, em plena Segunda Guerra Mundial. O cônsul assinou 30 mil vistos a refugiados, judeus ou não, que vinham fugidos da morte certa — da guerra ou dos campos de concentração.
   14 de Junho de 1940: Paris é ocupada pelas tropas nazis, e o Governo transfere-se para Bordéus, onde trabalhava o cônsul Aristides de Sousa Mendes. Milhares de pessoas deslocam-se para sul. A França ainda era livre. Três dias depois, os franceses assinam a rendição à Alemanha nazi. Sousa Mendes toma em mãos a missão de tentar salvar tantos refugiados quanto possível, indo contra as ordens da circular n.º14, emitida pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros de Lisboa.
   Entre 17 e 20 de Junho de 1940, Sousa Mendes trabalhou sem pausas, apoiado por um rabi polaco, Chaim Hersz Kruger, e os milhares de vistos que assinou serviriam para garantir uma passagem segura para Portugal, e de Portugal para qualquer outro porto seguro. Quando os refugiados saídos de Bordéus chegavam a Hendaia (na fronteira franco-espanhola), davam de caras com uma fronteira fechada e autoridades que invalidavam os seus vistos. A informação da insubordinação de Sousa Mendes chegara a Lisboa e com isso tinha sido revogada a posição de cônsul. Então, o diplomata acompanhou os refugiados até Biriatu, um pouco mais para leste, uma fronteira terrestre menos conhecida e mais isolada, onde ainda não havia chegado a informação da desobediência do cônsul. A acção de salvamento duraria mais seis dias, até 25 de Junho.
   Pelas suas acções, Sousa Mendes foi condenado por Salazar a uma vida de miséria. Perdeu o trabalho, não se pode reformar, nem encontrar outro trabalho. Perdeu a Casa do Passal, em Cabanas de Viriato. Os seus filhos foram proibidos de ingressar no ensino superior. O único apoio que a família Sousa Mendes teve foi das comunidades judaicas, que ajudaram alguns dos seus filhos a partirem para os EUA e o Canadá. O cônsul morreu em 1954, vítima de múltiplos AVC, remetido ao esquecimento.

   O cônsul foi reconhecido como “Justo entre as Nações” pelo Estado de Israel. Este título honorífico é atribuído às pessoas não judias que usaram “a sua vida, liberdade, ou estatuto” para salvar uma ou mais vidas judias durante o Holocausto. Há mais de 25 mil “justos entre as nações” dos quais três são portugueses. Aristides de Sousa Mendes foi o primeiro a receber o título, postumamente, em 1966. Mas só 20 anos após a atribuição deste título é que o governo português reconheceu oficialmente as acções do cônsul. Foi apresentado um pedido de desculpas à família Sousa Mendes e Aristides recebeu o estatuto de embaixador e a medalha da Ordem da Liberdade.
   Em memória de Aristides decorreu ontem uma celebração dupla. A Casa do Passal, em Cabanas de Viriato, onde Aristides passou grande parte da sua vida e tinha a sua casa familiar, celebrou 16 anos como Fundação Aristides de Sousa Mendes. E em Nova Iorque foi inaugurada a exposição Portugal, a última esperança: os vistos para a liberdade de Sousa Mendes.
   No ano em que se cumpre meio século sobre a atribuição do título de “Justo entre as Nações", a Federação Sefardita Americana, em colaboração com a Sousa Mendes Foundation, organizou a mostra, no Centro para a História Judaica, incluindo imagens e documentos inéditos.
   A Sousa Mendes Foundation, com sede na mesma cidade americana, foi criada em 2010 por descendentes do diplomata e dos beneficiários dos vistos que passou em Junho de 1940.

   Esta é uma figura da história que admiro imenso e por isso não poderia deixar de partilhar este magnífico texto convosco, tendo em conta este aniversário tão especial. 

Informações retiradas de Publico.pt; Imagens retiradas de Vidas Poupadas.